Carango Samba-Enredo
Por volta dos 30 anos de idade, pensei em dois versos melódicos que seriam
trocadilhos com o
solfejo das notas. Um deles é “Se lá dou ré”, das notas si, lá, dó sustenido e ré,
na escala de
Ré. O outro é “Lá do sofá”, das notas lá, dó sustenido, sol e fá sustenido, também
da escala de
Ré.
Esses versos são melodias muito agradáveis, fazem o trocadilho e ambos são na escala
de Ré.
Então vi potencial em surgir uma música utilizando-os.
Tentei criar várias histórias pra encaixar esses versos na música, mas foi aos 43
anos de idade,
no caminho do trabalho, na Rua Cristiano Ottoni em Santos, que criei a história do
Carango
Samba-Enredo.
A rua é um retorno no Morro do Pacheco para virar em direção ao Valongo. É uma rua com muito trânsito, semáforo demorado e com tráfego
intenso de
caminhões, mas valeu o tempo parado no carro para bolar essa história.
Enfim, é a história de um trabalhador que mora no morro com seu carro velho, e que
estaciona o
carro apoiado numa caçamba, porque o freio de mão está quebrado. Quando ele dá ré
para sair pra
trabalhar, o carro faz barulho igual uma escola de samba e acorda a vizinha.
Então, “Se lá dou ré, samba-enredo no morro” e “lá do sofá (a vizinha) me dá bronca
de novo”.
Fui muito elogiado por criar isso, mas também me disseram que ninguém iria perceber
isso na
música.
Outra coisa que fiz foi criar um vai e volta nos acordes G e A7 antes de resolver no
D (ré),
para então cantar o refrão dos versos inspiradores da música, dando a ideia de
dificuldade de
entrar a “ré” no câmbio.
Amor Juvenil
Assim como o Logo Paulo, a ideia surgiu muito cedo, aos 19 anos de
idade. E expressei para os
meus amigos que ainda iria fazer essa música, saindo de um samba na Vila
Madalena!
Bom, havia escrito um poema fazendo frases com todos os nomes com
terminação ...berta
(Florisberta, Roberta etc.). Um poema muito bonito... Lembro que
terminava assim: “De todos os
nomes, só penso em um, Berta” (trocadilho com Humberta) - risos.
Já a letra da música foi escrita por completo e com muito custo por
volta dos meus 40 anos de
idade. Varei várias noites escrevendo a letra; primeiro a letra, antes
da melodia. Processo
lindo escrever a letra primeiro porque a melodia de repente desce em
você. Uma das melhores
sensações do mundo, me sinto um instrumento de Deus!
Gostaria só de ressaltar o paralelismo entre primeira parte e segunda,
nas quais as terminações
dos versos são foneticamente iguais, e a aventura amorosa que surgiu na
minha cabeça.
Um verso que gosto muito é “No Carnaval desse bordão”, que remete aos
encontros e desencontros
(Carnaval) desse bordão (nomes parecidos). É um trocadilho com “bordão
de Carnaval”. Há um
quadrilátero amoroso entre Florisberta, Roberta, Norberta e
Humberta.
“Vou te contar da Florisberta lá da Igreja do Bonfim
Que reza pra amar Roberta que nem um anjo querubim
Pois ela rebaixou Norberta de Arlequim a Pierrô
Foi quando preferiu Humberta a quem também não se amarrou”
Bom, a referência religiosa já remete à intolerância ao homossexualismo,
e o significado de anjo
querubim é um anjo de quatro asas; por isso o quadrilátero amoroso.
Também falo de Arlequim a
Pierrô em referência ao famoso romance carnavalesco da Colombina.
Ode à Maria Antonieta
Num Natal, tirei minha mãe de amigo secreto e então pesquisei o
nome dela no Google, para pensar em uma
charada e descobrirem quem eu havia tirado. Encontrei um poema
da Revolução Francesa falando muito
mal da rainha Maria Antonieta. Achei que aquilo não poderia
ficar assim.
Então fiz um poema, espelho deste de tantos anos atrás, só
que falando bem da minha mãe. O verso
que mais gosto é “É o apertão dos nossos laços”, por minha
mãe ser a pessoa mais importante para
a união da família. O poema original chama “Ode à Rainha
Nefasta”:
Ode à Rainha Nefasta
Monstro da Germânia vizinha,
O desastre de nossos prados.
Quando até, contra a pátria minha
Cometerás teus atentados?
Chega-te, mulher detestável,
E observa esse abismo inefável
Ao qual fomos arremessados
Por teus crimes! Queres, em ira,
A fim de consumir tua pira,
Ter-nos um ao outro sangrado?
Em vão eu busco em minha memória,
Nomes de seres abjurados,
Porém não encontro em toda a História
Quem possa a ti ser comparado.
Te creio, rainha reptícia,
Bem mais pródiga que a Egípcia
Que ao César untou com mel;
Mais ufana que Agripina,
Mais salaz que Messalina,
Que os Médici mais cruel.